18 de fevereiro de 2011

Sangue

Escuto o já prolongado grito em surdina do vento nocturno. Este que no relento das minhas próprias mágoas se mantém imperialmente inalterável.
Miro o céu de tão farto da terra que me sinto, já disfarçando a pouca ou quase nenhuma vida que por lágrimas secas há muito tempo, gradualmente há muito se desvaneceu do meu rosto. Ao alto consigo ter vislumbres o que me lembra ter sido a amiga que outrora tratei por Lua, essa que com interminável paciência esteve todas as noites presente para que lhe confidênciasse o meu mais guardado intímo mas, esta noite, não mais era do que um astro no alto do infinito maior que outros tantos.
No chão, o vento me adormecia os sentidos pois empurrava até mim o frio típico de uma noite de fim de Janeiro. Mantendo o passo e cerrando os dentes, meti as mãos aos bolsos gastos das calças e segui em frente até a um pequeno recanto escuro, abrigado e escondido na  rua que, a esta hora não mais tem do que um triste amargurado cagueando sob a luz amarelada dos candeeiros.
Acendo um cigarro na vã tentativa de que o satisfazer do vício consiga aquecer-me ou acalmar o turbilhão de amargura e nervosismo que espelham o meu semblante abatido, escusando um disfarce ingido de alegria tão próprio de mim que, de um modo semi-masoquista, me convenci que em verdade a vivera em pleno. Mas mentira a mim mesmo novamente e, agora que não conseguira compactuar mais com a minha pessoa havia mergulhado de cabeça  na mágoa que havia evitado há muito tempo.
Um espírito vagabundo. Sim, pois não sentia mais o corpo devido à dormência em que me encontrava e meu nome não mais passava do que de um som igual a outros tantos barulhos nocturnos. Esperava somente por um sopro de vida que fosse embater contra mim e me desse o minimo alento para retomar a minha interrompida existênci, algo que fizesse sentido por entre tanta ponta solta... Mas tudo era tão vago quanto a brisa gelada de inverno que soprava nessa noite.
E foi aí que sangrei, me abati e me deixei definhar sem oferecer resistência a este capricho. Perscutando o fim do que outrora tinha sido eu, adimirando a gota que se formava engravidando em seguida de si mesma e escorrendo, dando lugar a outras tantas que se seguiram. Consentindo a aflição final e a comiseração do Ser. Ao dar por mim...
Estava chorando por fim de cara lavada a morte de uma alma que fantasiou ser ela e o tardio despertar da dura realidade sempre negada.

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