24 de fevereiro de 2011

Inspiração

Não te tratarei por voçê. Não faço também a minima ideia se queres que te trate por tu ou se tens algum titulo como prefixo do teu subjectivo... Que subjectivamente para mim se torçeu formando um adjectivo da minha identidade.
Serás tu eu? Ou serás alheia a mim? Entre estes anos de escassa convivência e partilha... Serei eu que te possuo ou tu que me iluminas?
Antigamente corriam boatos de que os grandes autores tinham a visita de um Ser invisivel, Ser esse que lhes confiava segredos acima da compreensão humana que entendiam por bem serem revelados. Não atribuindo assim o mérito total de uma grande criação a um mortal mas, se fosse um fiasco, não teria ele completa culpa pois apenas transcreveu o que o Ser lhe indicou... A culpa seria do Ser, poderia ser que estivesse menos "sóbrio". Quem sabe?
Hoje em dia, tudo mudou. A inspiração é do Homem! A ideia foi dele, o trabalho é seu e toda a fama e reconhecimento que possam advir da sua obra será sua (tal como a megalomania que irá desenvolver). Mas, se a sua tentativa for infurtivera? Toda a desgraça irá cair sobre ele.
Será então correcto deixar tal responsabilidade a cargo de um ser tão vulnerável? Não terás tu Inspiração sido submetida à banalização que o tempo te trouxe? O Homem nunca foi em toda a sua História um ser fiável. Nem para o planeta que se dá ao luxo de habitar, nem para o seu semelhante, nem para si próprio. Julgo que nada mais errado é do que te deixar cair nas mãos do Homem e aos seus infames caprichos.
Pessoalmente, julgo não vir de mim aquilo que escrevo. Passa por mim admito, mas não é meu... Transcende-me desde o momento em que não tenho de pensar sobre ter de escrever "alguma coisa" pois, quando menos espero, vem-me à cabeça uma palavra que implora ser explorada, e enquanto a transcrevo surge-me uma frase, sequêncialmente um paragrafo... Quando dou por mim tenho um texto escrito de improviso em que apenas terei de efectuar alguns ajustes com o tempo.
E como exemplo... Te dou isto... Que não sei sequer o que escrevi desta linha para cima. Deixei simplesmente os dedos pular em cima do teclado.

18 de fevereiro de 2011

Sangue

Escuto o já prolongado grito em surdina do vento nocturno. Este que no relento das minhas próprias mágoas se mantém imperialmente inalterável.
Miro o céu de tão farto da terra que me sinto, já disfarçando a pouca ou quase nenhuma vida que por lágrimas secas há muito tempo, gradualmente há muito se desvaneceu do meu rosto. Ao alto consigo ter vislumbres o que me lembra ter sido a amiga que outrora tratei por Lua, essa que com interminável paciência esteve todas as noites presente para que lhe confidênciasse o meu mais guardado intímo mas, esta noite, não mais era do que um astro no alto do infinito maior que outros tantos.
No chão, o vento me adormecia os sentidos pois empurrava até mim o frio típico de uma noite de fim de Janeiro. Mantendo o passo e cerrando os dentes, meti as mãos aos bolsos gastos das calças e segui em frente até a um pequeno recanto escuro, abrigado e escondido na  rua que, a esta hora não mais tem do que um triste amargurado cagueando sob a luz amarelada dos candeeiros.
Acendo um cigarro na vã tentativa de que o satisfazer do vício consiga aquecer-me ou acalmar o turbilhão de amargura e nervosismo que espelham o meu semblante abatido, escusando um disfarce ingido de alegria tão próprio de mim que, de um modo semi-masoquista, me convenci que em verdade a vivera em pleno. Mas mentira a mim mesmo novamente e, agora que não conseguira compactuar mais com a minha pessoa havia mergulhado de cabeça  na mágoa que havia evitado há muito tempo.
Um espírito vagabundo. Sim, pois não sentia mais o corpo devido à dormência em que me encontrava e meu nome não mais passava do que de um som igual a outros tantos barulhos nocturnos. Esperava somente por um sopro de vida que fosse embater contra mim e me desse o minimo alento para retomar a minha interrompida existênci, algo que fizesse sentido por entre tanta ponta solta... Mas tudo era tão vago quanto a brisa gelada de inverno que soprava nessa noite.
E foi aí que sangrei, me abati e me deixei definhar sem oferecer resistência a este capricho. Perscutando o fim do que outrora tinha sido eu, adimirando a gota que se formava engravidando em seguida de si mesma e escorrendo, dando lugar a outras tantas que se seguiram. Consentindo a aflição final e a comiseração do Ser. Ao dar por mim...
Estava chorando por fim de cara lavada a morte de uma alma que fantasiou ser ela e o tardio despertar da dura realidade sempre negada.

3 de fevereiro de 2011

O sufoco

Sem ti hoje. Mais um dia entre tantos iguais. Outro semelhante que servirá para juntar à já vasta lista de dias corridos em loucura desde a tua partida.
Como me sinto? Eis uma questão que sinceramente gostaria de saber responder a mim próprio. O amor que ainda me resta por ti, em toda a sua imensidão, destrói a pouco e pouco a minha já muito reduzida sanidade mental. Não consigo fugir à tua memória e a todas as lembranças tuas que encontro pelos sentidos. O cheiro, visão, o tacto... Embora não consiga sequer dormir pois sei que serás o motivo dos meus pesadelos, tal como és a infeliz constante do meu pensamento.
Foste-te, nada sei actualmente sobre ti. Será que, por ventura, te lembras minimamente de mim e dos momentos por ambos passados? Arrisco-me por vezes a tentar romper o silêncio que nos impuseste e humilhar-me por uma oportunidade, embora saiba que tive tanta ou tão pouca culpa quanto tu em toda esta história. Mas tremo que nem varas verdes só de ponderar a possibilidade de menosprezares a minha trémula e frágil tentativa de dar um novo alento ao nosso cupido.
Só agora me apercebo de que, como em tão pouco tempo, o Tudo que foi edificado e conquistado a ferro e fogo por ambos se desfez num completo nada como se se tratasse de um castelo de areia. Como fui cego ao ponto de conseguir abstrair-me tanto de mim mesmo até, inclusivamente, substituir a minha vontade pelo teu desejo. Como será então possível que apenas a tua presença me tenha conseguido preencher e, agora que me faltas, noto que me tornei num vazio tão grandioso quanto o apego que ganhei à tua pessoa.
A minha segurançã interior é notória até mesmo aos olhos de um morto. Será que ainda me amas da mesma forma que amavas antes? Como eu te amo! Mas, se me amasses...
Agora que penso nisso, será que algum dia me chegaste a amar de verdade? Ou foram falsas as palavras que me declaraste e apenas consentiste a minha queda na fantasia de um amor que, em verdade, nunca existiu? Não quero acreditar em tal coisa. Seria a maior desilusão que me poderias dar pois, sei que apesar de te descobrir traços divinos, terias descido ao nível de uma reles mentira.
Ao menos quebra o silêncio. Dá-me um motivo para encerrar esta reticência, romper o impasse me prende a ti e me basear numa certeza de uma vez por todas. Mas diz-me o que quer que seja nem que me trates mal! Pode ser que ao revoltar-me com a injustiça das tuas palavras, te ganhe raiva e a aproveite para seguir em frente sozinho. Mostra-me que nunca valeu a pena entregar-me a ti como o fiz, que toda a cumplicidade existente foi unilateral e todo o tempo contigo foi mal gasto... Ou diz que me amas.
Isso! Confessa o teu desejo de inverter esta tortuosa e constangedora situação, confessa-te arrependida de todo este escusado afastamento. Dá-te e dá-nos uma segunda chance. Vem, juro perdoar e esquecer o que tenho sofrido por ti nestes últimos tempos para que, juntos, possamos recriar o nosso mundo de eterno amor e felicidade.
Será que não sou suficientemente válido para ti? Se apontares as minhas falhas poderei melhorar e corrigi-las. reconheço plenamente toda a minha imperfeição e que, por vezes, te possa ter desiludido... Mas já não aguento mais este sufoco.